No Brasil, diferentemente do padrão europeu, os
princípios do liberalismo não evoluiram em função da revolução industrial e se
forjaram na luta da burguesia contra a aristocracia e a realeza. Temendo os
“excessos” das pressões democráticas (tidas como radicais), o liberalismo se
dissociava da idéia de democracia, definindo seus limites pela
escravidão, dependência colonial e sobrevivência de estruturas arcaicas de
produção. Ou seja, o moderno nascia apoiado nas estruturas “antigas”, as
classes de extração rural e sua clientela.
(Independência do Brasil, um exemplo de "revolução pelo alto")
A “ideologia do mando e do favor” implica relações de
subordinação, arbítrio e serviços pessoais, formando também uma relação de cumplicidade
entre ambas as partes “livres”, o favorecido e seu benfeitor. As idéias
européias podiam servir para justificar o “momento de arbítrio que é a natureza
do favor”, desfazendo o antagonismo e fazendo com que “os incompatíveis saiam
de mãos dadas”.
Temos a presença dos “coronéis” que exerciam funções
públicas através de um sistema de troca de favores com seus dependentes, com
recursos do Estado. As funções e os recursos públicos eram privatizados em
função de interesses privados.
A burguesia se viu obrigada a recompor suas frações
internas, de modo a contornar a “crise do poder burguês”. Mas preservam-se as
alianças com a grande propriedade territorial e com o grande capital
internacional. O Estado, separado do conjunto de nação, era o eixo da
recomposição de seu poder.
A burguesia adapta-se à industrialização intensiva e a
economia brasileira se consolida “como uma economia de regulação monopolista”.
O progresso era defendido sempre dentro da ordem, evitando as ameaças revolucionárias
e condizendo com sua tradição cultural e política conservadora. Produzia-se um
quadro de agravamento do desenvolvimento desigual interno e intensificação da
dominação externa.
Os trabalhadores urbanos e rurais, sujeitos à repressão
do Estado e ao arbítrio do poder privado local, permaneciam excluídos das
decisões do Estado e do bloco do poder.
As lutas sociais explodiram contra essa anulação da
cidadania dos trabalhadores sobre a qual se construiu o liberalismo no Brasil.
O amadurecimento político e o histórico de lutas dos trabalhadores rurais se
unem à história do movimento operário urbano e do sindicalismo brasileiro.
“A modernização conservadora implica uma aliança do
grande capital financeiro, nacional e internacional com o Estado nacional”. Há
um processo de modernização da economia e do aparelho de Estado, mas as
conquistas sociais e políticas registradas na constituição – apesar das lutas
operárias e das várias reivindicações de setores populares – permanecem
defasadas. O desencontro entre economia e sociedade agrava e diversifica as
desigualdades.
“No pensamento social brasileiro, a questão social recebe
diferentes explicações e denominações: ‘coletividades anormais’, ‘sociedade
civil incapaz’, ‘povo amorfo’, sendo o tom predominante a suspeita de que a
vítima é culpada, e a pobreza, um ‘estado da natureza’.” Há uma tendência do
pensamento social brasileiro de naturalizar a questão social, que combinada com
a repressão e o assistencialismo, contribui para a criminalização da questão social.
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